Grupo WhatsApp

A herança da imigração na fala do brasileiro

A herança da imigração na fala do brasileiro

06/05/2019 Laís Modelli

Estima-se que ainda estejam em uso no Brasil mais de 50 línguas de imigração, muitas delas trazidas por europeus a partir do início do século 19.

A herança da imigração na fala do brasileiro

Pomerode, em Santa Catarina, tem três línguas oficiais: português, alemão e pomerano

 

Nascido no Rio Grande do Sul, o biólogo Piter Kehoma Boll entrou em contato com a língua portuguesa somente na idade escolar. "Dentro de casa, a minha família usava apenas o hunsriqueano para se comunicar", conta. "Meu contato com o português foi acontecer somente por meio da televisão e, mais tarde, na escola."

Em 1824, a família de Boll migrou de Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, para o Brasil. Assim como muitos imigrantes que chegaram ao país no século 19, os ancestrais de Boll não falavam o alemão oficial, mas o dialeto hunsrückisch.

Em terras tupiniquins, o hunsrückisch entrou em contato com o português e se fundiu com algumas palavras, dando origem a uma nova língua, o hunsriqueano, falado no Brasil há quase 200 anos.

O médico Ivan Seibel, nascido em Santa Leopoldina, no Espírito Santo, também aprendeu o português somente na escola. "Na região onde nasci, em meados do século 20 se falava quase que exclusivamente o alemão e algumas línguas de origem germânica, como o hunsrückisch e o pomerano", conta.

Assim como os Boll, os Seibel vieram do sudoeste da Alemanha, e a família materna do médico veio de Hinterpommern (Pomerânia Oriental), região que hoje pertence à Polônia e da qual muitos antigos habitantes migraram para o Sul e Sudeste brasileiros.

"O pomerano é uma variedade linguística germânica. Na Europa, possui o status de dialeto alemão", explica a linguista Neubiana Beike, pesquisadora do Inventário da Língua Pomerana no Brasil.

Assim como o hunsriqueano, no Brasil, o pomerano é considerado uma língua, mais especificamente, uma língua de imigração.

"As línguas de imigração são aquelas trazidas de fora, por imigrantes que chegaram ao Brasil a partir do início do século 19 e faladas por seus descendentes", explica a linguista Rosângela Morello, coordenadora do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL).

Segundo o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, as Línguas Brasileiras são divididas em cinco categorias: línguas de imigração, indígenas, de sinais, crioulas e afro-brasileiras. O IPOL estima que existam 56 línguas de imigração ainda em uso.

"O Brasil não é monolíngue. É um país plurilíngue, multicultural e multiétnico", ressalta Beike. "Além do pomerano e do hunsriqueano, o país também tem falantes do talian, do platt menonita, vêneto, suábio, vestfaliano, wolgadeutsch, húngaro, lídiche, caboverdiano, da variedade nipo-brasileira, variedades do suíço e do holandês, etc", lista a pesquisadora.

Cidades com várias línguas

A partir de 2007, línguas de imigração se tornaram línguas cooficiais em 19 municípios, sendo ensinadas nas escolas municipais junto com o português. Em Pomerode, Santa Catarina, há três línguas oficiais: português, alemão e, desde 2017, o pomerano. Em 2012, o hunsriqueano se tornou Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul.

Além das iniciativas governamentais, livros, músicas e meios de comunicação em línguas de imigração vêm sendo criados por seus falantes. Um dos exemplos é o portal Folha Pomerana, criado em 2013 e editado pelo próprio Seibel em pomerano. "Temos cerca de 10 mil assinantes, além de colaboradores em diversas partes do Brasil e até na Alemanha", conta o médico.

Iniciativas como a de Seibel ajudam a fazer com que a língua vinda da Pomerânia continue viva. "As novas gerações não estão mais falando o pomerano. Os pais e os avós falam a língua, porém, não chegam a ter netos falantes ativos", comenta Beike.

"Na fase da alfabetização em língua portuguesa, as crianças começam a deixar de falar o pomerano. A fase da adolescência também é crítica, pois os jovens relatam sentir vergonha em falar o idioma e ser excluídos", diz.

A linguista alerta que algumas palavras do idioma pomerano já começaram a ser esquecidas pelos mais novos. É o caso de "twairad" (bicicleta) e "ootmen" (respirar). 

Depois que saiu da casa dos pais e que faleceu a bisavó alemã, que nunca aprendeu o português, Boll conta que o hunsriqueano deixou de fazer parte do seu dia a dia. Foi aí que surgiu a ideia de criar um blog para não perder contato com o idioma.

"Línguas minoritárias correm o risco de desaparecer em poucas gerações, e o hunsriqueano é uma delas. Como praticamente não existe um material de fácil acesso que registre, divulgue e ensine o idioma, decidi fazer o que estivesse ao meu alcance", diz.

Em 2012, Boll começou a registrar conversas na língua. "Dois anos depois, montei a primeira versão do dicionário em hunsriqueano e sigo atualizando-o toda a vez que me deparo com uma palavra nova", conta. O dicionário está disponível online para download e inclui mais de mil verbetes.

Italiano dos trópicos

Talvez o caso mais curioso de línguas de imigração brasileiras seja o talian, que é, desde 2014, Patrimônio Cultural do Brasil, além de língua cooficial em oito cidades do sul brasileiro.

"O talian, também conhecido como vêneto-brasileiro, se formou do contato entre a variedades do italiano faladas na região do Vêneto, na Itália, e as do português faladas na metade do século 19", explica Morello.

Assim como o hunsriqueano, o talian tem dicionário e até um material de gramática, que é usado em Serafina Correa, no Rio Grande do Sul. Também há livros, jornais, cantigas e músicas no idioma.

Pelo menos 200 estações de rádio brasileiras transmitem em talian. Uma delas é a Rádio Brasil Talian. "Somos uma rádio cultural e colaborativa feita por descendentes de italianos que, de forma gratuita, fazem a programação diária em talian", explica o responsável pela RBT, Luiz Agostinho Radaelli. "O talian está no coração de nossos ouvintes, já que as primeiras palavras que muitos deles ouviram de suas mães foram pronunciadas nesse idioma."

A italiana Giorgia Miazzo veio ao Brasil para um intercâmbio nos anos 2000 e descobriu as comunidades "talianas". "A minha família, assim como muitos moradores antigos do norte da Itália, não fala o italiano oficial, mas dialetos. Assim que cheguei ao Brasil, percebi que muitos falavam uma língua praticamente igual ao vêneto, dialeto que falo em casa", conta.

Desde então, Miazzo passou a pesquisar o talian e escreveu o livro didático Cantando in Talian, que já foi usado em algumas cidades do Brasil. "O que está nos livros escolares é uma história italiana da imigração no Brasil, mas não há nada da cultura 'taliana'", comenta Miazzo.

"Há uma enorme importância cultural para todos os brasileiros no ato de manter vivas as línguas de imigração, porque o Brasil não seria como é, rico e diverso, se não fosse pela presença histórica de todos esses grupos e suas línguas", afirma Morello. A linguista considera ser urgente que o país tenha um censo linguístico para mapear com precisão todas as línguas faladas no Brasil.

Fonte: Deutsche Welle



Estação de Moeda é reinaugurada após restauração

A Estação Ferroviária de Moeda (MG) foi restaurada em obra de R$2,8milhões, sendo entregue à população em seu aniversário de emancipação.

Autor: Divulgação

Estação de Moeda é reinaugurada após restauração

A força da arte no enfrentamento da violência contra a mulher

Vivemos em um tempo de conquistas importantes, mas também de cicatrizes que insistem em permanecer.

Autor: Juliana Sícoli

A força da arte no enfrentamento da violência contra a mulher

Cemig destina R$15 milhões para patrimônio cultural

Iniciativa via Lei de Incentivo à Cultura busca projetos de restauro em Minas Gerais. Inscrições abertas até março de 2026.

Autor: Divulgação


Centro Cultural UFMG abre seleção para novas exposições

Propostas de artes visuais podem ser submetidas até 9 de novembro para ocupar galerias do Centro Cultural UFMG na programação de 2026/2027.

Autor: Divulgação


Prado celebra os sabores do campo no Festival Gastronômico e Cultural

De 9 a 19 de outubro, evento convida moradores e turistas a embarcar em uma deliciosa jornada culinária com o tema "Colhido no Campo, Escolhido na Feira".

Autor: Divulgação

Prado celebra os sabores do campo no Festival Gastronômico e Cultural

Um momento para a abstração

Nossa abordagem sobre o abstrato aqui, como de hábito, busca conduzir o pensamento com o leitor, para a conexão prática do campo dos negócios.

Autor: George Leal Jamil

Um momento para a abstração

Folclore: identidade, tradição e formação integral

Há quem veja o Dia do Folclore apenas como uma data folclórica no calendário escolar, com fantasias e apresentações.

Autor: Divulgação

Folclore: identidade, tradição e formação integral

‘Leonora’: livro celebra coragem e a autoconfiança

Patricia Paes, apresentadora e locutora, lança sua primeira obra como ilustradora, uma história infantil sobre coragem e superação.

Autor: Divulgação


“A Aventura de Noah” leva reflexão sobre crianças prematuras

O livro “A Aventura de Noah”, de Eliana Sá, circula por cidades de Minas Gerais em agosto e setembro para levar acolhimento e esperança a famílias de bebês prematuros.

Autor: Divulgação

“A Aventura de Noah” leva reflexão sobre crianças prematuras

Professor da Univali lança livro para descomplicar a gestão

Evento é aberto ao público e acontece na quarta, 13, em Itajaí.

Autor: Divulgação

Professor da Univali lança livro para descomplicar a gestão

Clubes de leitura viram refúgio em tempos de tela

Clubes de leitura se popularizam no Brasil como espaços de troca e pertencimento.

Autor: Divulgação

Clubes de leitura viram refúgio em tempos de tela

Projeto Travessia – dança na UFMG abre matrículas até 12 agosto

Iniciativa registrou 120 inscritos em sua edição inaugural e agora contará com sete turmas.

Autor: Divulgação

Projeto Travessia – dança na UFMG abre matrículas até 12 agosto