Um momento para a abstração
Um momento para a abstração
Nossa abordagem sobre o abstrato aqui, como de hábito, busca conduzir o pensamento com o leitor, para a conexão prática do campo dos negócios.

Em algumas áreas do pensamento humano, vemos referências à abstração, como uma técnica usada para ampliar a compreensão de um contexto ou de construção de uma comunicação, entre outros vários detalhamentos e ações. Entretanto, a mensagem da abstração, em momentos e vivências em que demandas pressionadas surgem a todo instante, perde-se. A falta da abstração e da capacidade de abstrair terminam por representar deficiências na possibilidade do crescimento das ideias, da criatividade e, finalmente, do efetivo posicionamento de valor aos clientes, em geral.
Exploramos este caminho, da abstração em si e para processos organizacionais, neste artigo.
Na Filosofia, encontramos referências atribuídas à Aristóteles, que identificam o processo da abstração como uma forma de pensar um atributo, aspecto ou qualidade de maneira isolada, focada, em detrimento da percepção dos demais e buscando observar este aspecto em toda a população ou ocorrências. De maneira prática, podemos dizer que a observação de uma determinada característica, como um aspecto visual, digamos, uma cor em suas nuances e particularidades, abstraímos da realidade prática num primeiro momento. Portanto, se desejamos estudar o “azul”, em sua extensão, o fazemos, para depois, num passo de concretização, detalhar que tal cor, num de seus teores, foi achada ou aplicada em uma determinada realidade.
A pintura abstrata, por exemplo, expressa usualmente o desejo de artistas em construir relações de apreciação de emoções, sentimentos, sensações sem se ater a um determinado objeto, fato ou figuração. Por exemplo, nas obras de Mondrian - os famosos “quadradinhos”, tão explorados em acessórios domésticos, peças de decoração, etc. - encontramos a possibilidade de apreciar relações de profundidade, relacionamento, pressões e reações, sentimentos de proximidade e correspondência. O objetivo do artista é nos levar a esta discussão e reflexão, onde, sem ter um objetivo concreto, provoca-se o espectador com a reflexão e sensação dos aspectos, abstraindo da realidade.
Vassily Kandinsky, um artista completo, poeta, músico, pintor e teórico, trilhou, em sua evolução de carreira, um caminho que o levou à abstração. Em obras iniciais, buscava retratar ambientes, fatos e cenas. Posteriormente, desenvolveu sua percepção para o distanciamento da realidade, inserindo figuras exóticas (como o célebre “cavalo azul”) e, finalmente, representando sua arte por linhas, explosões de cores, dinâmicas e outros elementos que, segundo ele próprio, buscavam expressar sons, composições sonoras, pareando com os elementos musicais. Portanto, sua expressão dedicava-se mais a aspectos específicos, a serem interpretados em conjunto com os espectadores, de forma geral a várias concretizações.
Nossa abordagem sobre o abstrato aqui, como de hábito, busca conduzir o pensamento com o leitor, para a conexão prática do campo dos negócios.
Desta forma, cabe questionar: o que o exercício decisório em negócios tem a ver com a abstração? De que forma pode ser “aplicada”?
Não é um desafio de atendimento ou compreensão imediata, mas traz um grande potencial. Primeiramente refletir que há, mesmo na produção técnica, muitas motivações e determinações para que projetistas e implementadores tenham um momento de abstração. Por exemplo, no contexto do desenvolvimento de software, principalmente quando pensamos em métodos posteriores à forma de “orientação por objetos”, abstrair é uma recomendação que conduzirá o projetista a pensar num aspecto específico de uma categoria de elementos, buscando que ele seja estendido a várias outras aplicações, concretizações. Por exemplo, ao pensar em “dimensão”, buscamos compreender a fundo quais sensações e provocações este fator irá determinar aos usuários em geral, seja numa ou noutra forma de negociação. A dimensão comprimento irá ter pontos coincidentes e divergentes da dimensão volume, por exemplo, porém havendo inequívocas associações entre estas duas dimensões.
A capacidade de abstrair, no caso dos projetos de software, é importante por se traduzir numa definição elementar da representação abrangente de característica de dados e informações, levando à uma visão mais abrangente e efetiva do próprio software. Ou seja, o projetista que conseguir atender ao desafio de abstrair, terá diante de si uma perspectiva maior de ter códigos e funcionalidades que servirão a mais implementações, a mais clientes e usuários.
Uma visão de extremo foco, atendendo apenas a uma perspectiva de implementação única, poderá mesmo gerar uma funcionalidade, uma implementação apenas, até bem qualificada, contudo sem a percepção da abrangência, dificultando, por exemplo, sua replicação em outros campos e outras aplicações. Assim, por exemplo, o fator “dimensão”, sem uma discussão abrangente, ou seja, uma abstração, poderá resolver um problema em curso, mas dificilmente permitirá a percepção geral de sua atribuição em vários contextos, sendo escalada e replicável, inclusive beneficiando a própria produção de códigos.
Além da abstração em si, o domínio do processo de abstrair é algo que permite ao empreendedor ou empreendedora a ter maior alcance em suas decisões, em seus estudos e determinações ao elaborar planos e planejamentos. Ganha-se em enriquecimento, amplitude e perenidade naquilo que é observado, estudado e gerado como produto de planos empresariais.
Veja o exemplo da arte: artistas como os aqui citados, não geraram “apenas” obras inesquecíveis, mas formas de elaborar correntes de pensamento, de formas de gerar várias obras que alcançam o público, novamente convidando a pensar. Este é o poder da abstração!
Ao leitor:
Nossa proposta, nesta coluna, não é ensinar ou promover a crítica de Arte, em geral. É de provocar a reflexão sobre temas da gestão, como inovação, estratégia, marketing, transformação digital, entre outros, motivado por reflexões a partir da Arte.
* George Leal Jamil é professor e consultor em temas de educação executiva. Engenheiro, MsC em Computação, Dr. em Ciência da Informação, pós-doutorados em Inteligência de Mercado e Empreendedorismo. Autor e Editor de livros no Brasil e exterior. Colunista de O Debate.
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