A repetição como força criativa
A repetição como força criativa
Eventualmente, ao ouvir uma música ou ver uma pintura moderna, há uma sensação de “repetição”.

Isso pode ocorrer ao ver, por exemplo, as várias imagens de Marylin Monroe, em uma série de pinturas de Andy Warhol, ou quando alguém escuta, de maneira ingênua, a obra “Bolero” de Maurice Ravel. As figuras, sem as cores, são as mesmas. O ritmo permanece em toda a música, sendo quebrado parcialmente nos últimos acordes. É a repetição. Será mesmo uma repetição?
Divagar sobre “repetir” é sempre um bom teste de apreciação de arte que eu, iniciante e até mesmo desinformado apreciador de obras artísticas, faço com meus alunos e interlocutores. É um contexto muito desafiador, que normalmente confronta o limite entre inovação e produção, entre ruptura e escala e ainda motiva o público a compreender onde repetimos até mesmo para viver.
Fato depreciado, repetir é tido como sendo tedioso, limitante e restritivo. Repetindo sempre, sem tempo e energia para criar (como se fossem temas opostos, diversos). Repetição é algo que aparenta ser condenável, de pouca perspectiva de agregação de valor, sem merecer a atenção dos que querem se aventurar, romper barreiras e inovar. Mas… como de hábito… cabe questionar: o que exatamente chamamos por “repetir”?
E a resposta é a de sempre: depende! Irá depender de como atuamos e/ou recebemos o que é potencialmente repetitivo. Vamos ao sensacional, profundo, divagante e marcante “Bolero” de Ravel. Seria mesmo uma repetição? A peça é constituída, sem abordagem técnica alguma, da parte de um ouvinte, de um ritmo que se mantém (portanto, se repete), durante quase toda a peça, de maneira constante. É contagiante, bonito, envolvente. Sua execução compõe duas partes que demarcam muito a peça. Não é difícil sair do local de audição “batendo palmas” nos ritmos, solfejando algo similar à execução… a memorização é atrativa. São, como dito pelos músicos, dezoito execuções idênticas (ou seja, repetições) do principal tema.
Analisando um pouco mais, vemos o que brota, cresce da repetição desta obra-prima. No bater da “caixa”, que é tocada pelo percussionista, na base incessante da obra, cria-se a ambiência para que outros instrumentos sejam “convidados” a se expressar, as execuções se sucedem, espetacularmente, em combinações esperadas ou não, reforçando ou atenuando o som, delicadamente trabalhando a mensagem que a música passa. Segundo o compositor, a peça “Não tem forma no sentido da palavra, é apenas uma construção de arranjo orquestral sobre um tema repetido”. Ainda a ele se atribui a qualificação de ter sido sua única obra-prima, “infelizmente sem música alguma”.
Temos a possibilidade de aprofundar esta discussão sobre nossos hábitos, tarefas e rotinas, sobre a aplicação dos princípios da repetição e a obtenção de resultados. E até mesmo da ironia que é repetir em tempos de acelerada adoção de tecnologias.
Seja pessoalmente, seja organizacionalmente, nossa vida é repleta de repetições. Temos vontade, somos provocados e até remunerados para mudar as repetições, para nos afastar delas. Mas veja ao seu redor, pense no seu amanhecer e poderá verificar, se me permite, que potenciais rupturas, improvisos e criações do seu dia ocorreram porque havia ali a caixa “batendo” o ritmo, a percepção de uma constância e de várias rotinas que foram bem feitas para que você, nosso leitor, a exemplo de quem vos escreve, repetiu fatos e ações, que possibilitaram que os demais instrumentos vitais emitissem vibrações, sons magníficos e pudessem potencializar mudanças. Escute o Bolero mais de uma vez, dê ouvidos a tudo que ocorre e poderá descortinar várias nuances, formas e mensagens alinhadas. E a caixa prossegue sendo tocada, no ritmo.
Numa organização, há todo o ritmo sendo tocado. Aquilo que “entrega”, atende os contratos, fatura e é reconhecido pelo mercado subjacente é quase integralmente repetido, repetitivo. Cansa, entedia? Pode ser. Mas sem isto, não há processo, método ou organização em si. Qual a definição do modelo de negócios? Da Estratégia? Do planejamento? Para todas estas e outras questões, o fator repetitivo implica no ritmo, no compasso, no cronograma, na gestão básica e elementar. Em nenhum momento, a exemplo do Bolero, não há a determinação do “só pode ser desta forma”, “não se pode imaginar” ou coisa parecida. É justamente aí, no alinhamento dos processos e métodos, do conhecimento do que planejamos e fazemos, que surge a possibilidade de provocar os ouvintes, os clientes e… efetivamente Criar!
Segundo consta, Andy Warhol teria dito a respeito de suas séries (Marilyns, latas de sopa Campbell, entre outras) que “quanto mais se observa, se olha, mais o significado se dilui, se perde e aí o observador se sente vazio e melhor”.
Esta é uma outra abordagem da parte de um “repetidor” reconhecido e celebrizado. Quantas vezes fomos convidados a “pensar fora da caixa” na busca de formas diferentes de fazer o que estamos fazendo? Não é interessante saber que, interpretando as mensagens do artista, justamente na observação insistente do contexto potencialmente repetido (as imagens em suas obras, muitas vezes, são, na verdade, diferentes), esvaziamos nossa mente para produzir algo novo?
Seria, e aí deixo aos especialistas a questão, algo baseado na estabilidade, previsibilidade trazida pela repetição que nos permite divagar e perceber novos contextos, alternativas e fronteiras, exatamente permitindo que escapemos da “caixa”?
Chamo a atenção do leitor para que boa parte do texto contém questões. Proponho aqui uma leitura de divagações, pois a incerteza, felizmente, acompanha a abordagem da repetição no meu entender. Repetir é essencial, indispensável, afinal, dependemos de algo aqui no peito que deve repetir seu processo por algumas dezenas de vezes por minuto, fornecendo-nos o fluxo sanguíneo necessário. Assim como nas organizações que formamos, a repetição é fundamental para termos uma base que nos permita variar, diferenciar e inovar.
E, em termos, a exemplo dos cabelos e maquiagem das “Marilyns” de Wharhol ou dos fantásticos acordes do Bolero de Ravel… não temos assim tanta repetição. É só observar com cuidado.
Ao leitor:
Nossa proposta, nesta coluna, não é ensinar ou promover a crítica de Arte, em geral. É de provocar a reflexão sobre temas da gestão, como inovação, estratégia, marketing, transformação digital, entre outros, motivado por reflexões a partir da Arte.
* George Leal Jamil é professor e consultor em temas de educação executiva. Engenheiro, MsC em Computação, Dr. em Ciência da Informação, pós-doutorados em Inteligência de Mercado e Empreendedorismo. Autor e Editor de livros no Brasil e exterior. Colunista de O Debate.
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