O apoio às artes como forma de investimento
O apoio às artes como forma de investimento
Um assunto incessante no contexto da apreciação das artes: por que “aquela” obra específica vale tanto?

O caso recente, da banana atada com uma fita adesiva à superfície, denominada “Comedian” pelo autor, o artista italiano Maurizio Cattelan, que foi arrematada por pouco mais de seis milhões de dólares em um leilão da casa Sotheby´s, trouxe uma forma inusitada de pensar nos investimentos. Aqui, vamos observar de outra forma, buscando sempre relacionar Arte e Gestão.
Nas interações com as comunicações, quando somos envolvidos por uma obra de Arte, muitas vezes não percebemos como aquela produção nos alcançou, quais os caminhos, desafios, dificuldades e limitações o artista teve de resolver para nos trazer sua expressão, comunicando suas várias mensagens, provocando-nos. Pinturas, músicas, esculturas, danças e bailados, espetáculos teatrais, entre outras expressões, atravessam um longo caminho, muito pressionado, até alcançar nossos olhos e ouvidos, produzindo as mensagens e sensações do convívio artístico.
Várias são as pressões que incidem sobre o desenvolvimento da Arte ao longo dos séculos. Restrições políticas, ideológicas, financeiras, sociais e de recursos se aliam aos interesses dos próprios artistas, valorizando adicionalmente o que foi produzido, o que nos alcança através dos nossos sentidos e emoções. A história no entorno da composição da terceira sinfonia de Beethoven, por exemplo, ilustra bem este processo: pensada pelo compositor como uma homenagem aos ideais promovidos por Napoleão Bonaparte, teve seu objetivo e título modificados pelo desapontamento do compositor quando o homenageado se auto-proclamou imperador da França. Na visão de Beethoven, Bonaparte traiu seus conceitos republicanos, adotando comportamentos similares às estruturas que havia combatido e derrotado. A fantástica e revolucionária “terceira” passou a homenagear um “homem heroi”, que pode ser alguém do cotidiano ou que tenha praticado ato significativo em prol da sociedade.
Nos dias atuais, alguns fatos da gestão empresarial remontam estes eventos da Arte. Eventualmente distraindo-se ou se afastando dos fundamentos que originaram as organizações, até mesmo pelo propósito de inovar em modelos de negócios ou em formatos estruturais de organização, ocorre ali uma desconexão potencial de valores, compromissos, histórico e é possível que alguma referência se perca.
O investimento numa obra de arte ocorre, primeiramente, pelo seu poder de compra estimado ou via ajuda - mecenato - aos artistas, como patrocínio para que a construção de suas entregas ocorra. Assim, peças musicais e de teatro são ensaiadas, tecnologias de pintura são testadas, esculturas são desenvolvidas em estágios de protótipos, entre outras formas, que se tornam possíveis pelo amparo financeiro provido.
Nas intervenções que testemunho ou estudo, quando afirma-se o patrocínio e/ou apoio a uma obra, surgem questionamentos de direcionamento, independência da autoria, restrição da criatividade, oportunidade, sobrevivência do artista ou de um movimento que este poderia integrar, entre vários outros. Lembro que há ocorrências de contratação, apoio vitalício, de famílias reais e outras instituições a artistas, que terminam por gerar compromissos de ambas as partes na produção e apresentação de obras.
São questões importantes, que nos levam a trazer as reflexões para o mundo de negócios, especialmente na atualidade, onde há incentivos, mecanismos e disseminação da cultura de investimentos - por exemplo via fundos de investimento e ações “anjo” - para que negócios e soluções inovadoras decolem, ganhem força e escalem.
No caso da pintura, há as ações de galerias de arte, promotores e curadores de exposições e montagens, patronos de escolas de formação e exercício artístico e, finalmente, dos relacionamentos dos artistas em particular. Surge daí o reticulado comercial e mercadológico de apoio com leiloeiros, comerciantes e marchands. Estes, por sua vez, podem direcionar as obras a um mercado que avalia a arte por valores tão variados como simples propriedade em coleções particulares, envaidecimento pessoal, relacionamento familiar ou, finalmente, investimento financeiro.
Seria uma forma de termos mensagens que orientam o investimento financeiro pelos mercados de intangíveis? Desta forma temos uma mensagem sobre as perspectivas, formas e expectativas de que estes investimentos produzam resultados que vão além de definições previstas, como num contrato de prestação de serviços? Encontramos, ao longo da história da Arte, compositores, pintores e outros artistas que foram “adotados” por famílias da nobreza europeia, por exemplo. Quantos destes investidores garantiram liberdade aos contratados, apoiados para gerar resultados pelas suas criatividades? Quais as formas de retorno, de apreciação? Haveria algum indicador fora das mensurações de retorno de imagem e finanças?
Estas ocorrências por vezes inexplicáveis de valorização de obras de arte, mesmo no “antes” ou no “depois” nos evidenciam alguns pontos para reflexão, sobre investimentos: O que, realmente, está sendo investido? Qual o valor financeiro, econômico e social de nossos investimentos? Como decidir e proteger nosso capital investido neste cenário? Quais os fatores de obsolescência e despreparo caso uma das formas ou expectativas de resultado seja dominante com relação aos demais?
A Arte nos ensina como o investimento, temporário ou mais duradouro, pode promover evolução, crescimento e maturidade. Como mensagens serão geradas e providas aos espectadores, em todo o mundo e qual o valor desta comunicação abrangente, atemporal e emocional.
Como refletido em um artigo anterior, há outras questões, que podem ter o contexto da Arte como base para decisões: Por quanto tempo haverá este investimento ou apoio? Quais as condições em que ele ocorre e poderá ser mantido? Quais as comunicações teremos de fornecer ao apoiador ou investidor, para que ele se sinta no controle de seu investimento? Podemos dizer que este apoio é exclusivo para nossa forma de arte (modelagem de negócios) neste setor e no mercado? Afinal, o que realmente motivou o investimento ou apoio? Retorno financeiro? De imagem? De reputação?
Penso que seria oportuno trazer a Arte como forma de auxiliar em perceber a extensão de nossos investimentos, adicionando os aspectos humanos às suas análises. Se uma mensagem pode valer “um punhado de dólares”, quanto valeria a emoção que ela causa, suas repercussões e desdobramentos? Um retrato, pintado no século XVII, que nos traz uma imagem de uma senhora de uma sociedade, pode nos revelar algo a mais sobre aquela realidade, aquele momento, adicionando uma experiência nova em nossa jornada? São aspectos fundamentais e contributivos que a reflexão em torno da arte pode provocar quando analisamos os investimentos.
O empreendedorismo moderno se apoia na dinâmica dos mercados, necessita do efetivo investimento por motivações estratégicas. Entretanto, métodos e caminhos precisam ser constantemente examinados, avaliados, decisões devem ser tomadas com fundamento. E a análise inspirada pelas Artes nos expõe a uma dinâmica diferente, diversa e complementar à dos cálculos imediatos e das taxas de retorno. A Arte nos faz pensar em todo o contexto de uma decisão de Gestão.
Ao leitor:
Nossa proposta, nesta coluna, não é ensinar ou promover a crítica de Arte, em geral. É de provocar a reflexão sobre temas da gestão, como inovação, estratégia, marketing, transformação digital, entre outros, motivado por reflexões a partir da Arte.
* George Leal Jamil é professor e consultor em temas de educação executiva. Engenheiro, MsC em Computação, Dr. em Ciência da Informação, pós-doutorados em Inteligência de Mercado e Empreendedorismo. Autor e Editor de livros no Brasil e exterior. Colunista de O Debate.
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