Grupo WhatsApp

Educação superior e a autonomia do MEC em xeque

Educação superior e a autonomia do MEC em xeque

09/09/2025 Janguiê Diniz

Um dos pilares da Constituição Federal de 1988 é a clareza na definição de competências do Estado brasileiro.

No campo da educação superior, cabe ao Ministério da Educação (MEC) regular, supervisionar e avaliar os cursos e instituições de ensino. Trata-se de um princípio que garante segurança jurídica, estabilidade institucional e, sobretudo, a proteção dos estudantes e da sociedade em relação à qualidade da formação oferecida.

Apesar disso, tem sido cada vez mais frequente a tentativa de conselhos profissionais extrapolarem suas funções legais, invadindo um espaço que não lhes pertence. O fenômeno não é novo, ignorando o fato de que as competências dos sistemas de ensino e dos conselhos não são concorrentes, mas complementares.

Para que não reste dúvida: aos primeiros, cabe assegurar a qualidade da formação; aos segundos, fiscalizar a prática ética e técnica dos profissionais já diplomados. Essa lógica deveria ser suficiente para colocar um ponto final em qualquer discussão. No entanto, o que se observa hoje é a intensificação de ingerências indevidas por parte desses conselhos.

É inegável a importância dos conselhos profissionais para a sociedade brasileira. Criados por lei, são autarquias com a missão de zelar pelo exercício ético e responsável das profissões regulamentadas. A eles cabe conceder o registro profissional ao egresso que apresente diploma válido e fiscalizar o cumprimento das normas por parte de seus inscritos. Essa atribuição, quando cumprida com rigor e transparência, é essencial para proteger a sociedade de práticas abusivas, negligentes ou antiéticas.

Entretanto, não é papel dos conselhos interferir na organização dos cursos de graduação, tampouco impor condições para sua oferta ou validade. Quando o fazem, agem fora dos seus limites e desrespeitam o princípio da legalidade que rege toda a administração pública. É importante lembrar que, como autarquias, os conselhos só podem atuar dentro do escopo claramente definido pelas leis que os criaram.

Exemplos de abusos não faltam. Há registros de conselhos que negaram inscrição profissional a egressos de cursos reconhecidos pelo MEC, sob o argumento de que a carga horária de estágio não era suficiente ou de que a modalidade de ensino (em geral, a distância) não atendia a critérios estabelecidos pela própria autarquia. Houve ainda episódios de campanhas publicitárias, como a do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) contra cursos de enfermagem a distância, que induziram a sociedade ao erro e foram suspensas pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

Recentemente, outra prática preocupante tem sido identificada: a emissão de resoluções, ofícios e normas com o objetivo de influenciar o funcionamento das instituições de educação superior, especialmente quanto a estágios, estrutura curricular e até diretrizes pedagógicas. Essa atuação é ilegal, pois ultrapassa os limites das competências atribuídas aos conselhos profissionais, interferindo em áreas que são prerrogativas exclusivas da autonomia universitária e do Ministério da Educação.

Fato é que o MEC possui instrumentos eficazes para avaliar a qualidade da formação oferecida pelas instituições de ensino superior. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), conduzido pelo Inep, aplica mecanismos como as avaliações institucionais e de cursos, além do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Recentemente, somaram-se a esses instrumentos o Enamed, voltado à Medicina, e o Exame das Licenciaturas, fortalecendo ainda mais o processo avaliativo.

Portanto, é absolutamente desnecessário criar exames de proficiência paralelos, como os que alguns conselhos têm defendido no Congresso Nacional. Além de gerar uma sobrecarga desnecessária nos estudantes, essa medida desrespeitaria a atribuição constitucional do Ministério da Educação.

Em outra frente, essa questão toca diretamente no futuro de milhões de jovens brasileiros. Quando um conselho atribui para si o direito de negar registro a um egresso de curso reconhecido pelo MEC, não está apenas usurpando uma competência do Estado: está comprometendo o sonho de um estudante, o investimento de sua família e a confiança na educação superior como motor de desenvolvimento.

Assim, defender a estrutura regulatória e avaliativa do Ministério da Educação é defender o Estado de Direito, a Constituição e, principalmente, os estudantes brasileiros. É assegurar que as políticas educacionais sejam construídas com base em critérios técnicos, científicos e pedagógicos, e não em pressões corporativas ou interesses de reserva de mercado.

O Brasil precisa avançar na qualidade da educação superior, e isso exige clareza de papéis. Conselhos profissionais devem se concentrar naquilo que a lei lhes atribui: fiscalizar a prática ética e competente dos profissionais registrados. O MEC, por sua vez, deve ser respeitado como a instância legítima para regular, supervisionar e avaliar os cursos.

Quando cada instituição cumpre sua função, quem ganha é o estudante, a sociedade e o país. Mas quando há invasão de competência, cria-se insegurança, injustiça e entraves ao progresso.

Janguiê Diniz - Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES).

Para mais informações sobre educação superior clique aqui...

Publique seu texto em nosso site que o Google vai te achar!

Entre para o nosso grupo de notícias no WhatsApp

Todos os nossos textos são publicados também no Facebook e no X (antigo Twitter)

Quem somos



O setor educacional sob ataque

Proteger dados é proteger o futuro da educação.

Autor: Denis Furtado

O setor educacional sob ataque

Tendências que vão transformar a educação online até 2030

A digitalização acelerada e a globalização da força de trabalho estão forçando um novo salto evolutivo na educação online.

Autor: Luiz Carlos Borges da Silveira Filho

Tendências que vão transformar a educação online até 2030

Segurança e mensalidades lideram escolha de escolas no Brasil

Especialistas destacam que a decisão vai além da conveniência e da questão financeira, exigindo um olhar atento à proposta educativa e aos valores da instituição.

Autor: Divulgação

Segurança e mensalidades lideram escolha de escolas no Brasil

IA na educação: dicas de prompts para estudo

Inteligência artificial se torna aliada do estudo no Paraná. Especialista orienta uso ético e compartilha comandos para alunos.

Autor: Divulgação

IA na educação: dicas de prompts para estudo

Gestão financeira em instituições de ensino

Para que uma instituição de ensino se mantenha sustentável, é indispensável uma gestão financeira eficiente.

Autor: Leonardo Chucrute

Gestão financeira em instituições de ensino

Aprendizado contínuo: o que motiva profissionais a nunca pararem de evoluir

Porque a capacitação permanente deixou de ser opcional e se tornou pilar estratégico para quem deseja se manter competitivo no mercado.

Autor: Eliane Oliveira

Aprendizado contínuo: o que motiva profissionais a nunca pararem de evoluir

O mestre e o samurai: lições do Japão para a sala de aula brasileira

No Japão, quando um professor entra na sala, os alunos se levantam. O gesto é simples, mas carregado de simbolismo.

Autor: Paulo Rocha


Brasileiros buscam programação com 3,9 milhões de pesquisas

O interesse em programação cresce no Brasil. Cursos e linguagens geraram quase 3,9 milhões de buscas online no último ano.

Autor: Divulgação


Univali inaugura centro de aprendizagem Google

Espaço de 150 m² na Univali em Itajaí nasce de parceria com Google for Education e Instituto Manager para fomentar a inovação digital e metodologias ativas.

Autor: Divulgação

Univali inaugura centro de aprendizagem Google

Para que serve uma escola?

Há uma diferença clara entre ordem e violência. Aliás, o uso da violência é fruto da impossibilidade da ordem.

Autor: Daniel Medeiros

Para que serve uma escola?

Histórico escolar passa a ser emitido on-line em todas as escolas da rede estadual

Nova funcionalidade permite a emissão de documento escolar com rapidez, padronização e segurança.

Autor: Divulgação

Histórico escolar passa a ser emitido on-line em todas as escolas da rede estadual

Sobre o dia do professor

Depois de 35 anos, voltei a assistir Sociedade dos Poetas Mortos.

Autor: Daniel Medeiros