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Almoço do Dia das Mães

Almoço do Dia das Mães

13/05/2009 Alexandru Solomon

Uma geração já havia sido ceifada. Os avós já não estavam presentes, a não ser nas lembranças de cada um, com maior ou menor intensidade.. Estavam todos em volta da mesa.

De certa forma, estavam cerrando fileiras. Pais e filhos. Foi, então, que teve a revelação. Os avós estavam presentes. Eram eles. Não era fácil admitir, mas, ao lado da esposa, eles constituíam agora a vanguarda que marchava ao encontro do destino. O detalhe perturbador é que eram eles a vanguarda. Eles eram os avós. Incrível.

Mas como era possível? Envolvidos no corpo a corpo com o cotidiano, não havia ficado claro aquilo que se lhes revelava naquele instante. Constatava, um pouco à maneira de Sartre, que a realidade presente podia ser reduzida a uma série de manifestações, através das quais aparições cons­truíam o cerne da existência. Esta percepção deveria ser deixada registrada de alguma forma, pelo simples fato de estar experimen­tando a necessidade de deixar, além de um rastro biológico, ensurdecedoramente presente na voz dos netos, uma pegada intelectual.

Aquilo deveria ser tra­duzido e adquirir uma vestimenta literária, mesmo se eivado por uma ótica distorcida pela emoção. O conflito entre a percepção interior e o convívio estava sendo provocado por conversas nostálgicas e se materializava graças à ajuda dionisíaca de alguns copos de vinho. Era nesses momentos que surgia o conflito entre o fenômeno do ser e o ser dos fenômenos. Ao diabo a filosofia. Poderia falar nos escolhos do solipsismo, mas havia evidências menos rebuscadas.

As presenças em volta da mesa demonstravam um teorema de continuidade de uma forma tão precisa que chegou a estremecer. Temeu por um instante que a pieguice tornasse tudo aquilo risível. Não ousava fazer com que os outros compartilhassem a visão. E se os outros des­sem umas boas risadas? Bem, se o homem era o único ser capaz de rir, não deixava de ser também o único que fazia rir.

Se algum animal ou objeto provo­casse hilaridade o faria recriando uma semelhança com situações humanas. Pronto, Bergson estava também presente. Era só colocar mais um talher, de qualquer forma sobraria comida. Mas era melhor guardar ainda um pouco os pensamentos e procurar uma maneira de compartilhar a visão de uma forma que fosse aceitável. Jactar-se por ter descoberto o óbvio era inaceitável, mas será que era o óbvio? Havia e sempre haveria uma repetição, mas sem­pre revestida de trajes diferentes.

Permanecia de pé a velha máxima de acordo com a qual era impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Era confortável pensar assim entre o assado e o sorvete, mas antes do café teria de falar. Uma velha tia, porta-estandarte da antiga geração estava lá, elo precioso com um mundo cuja lembrança se desman­chava atrás. Ao seu lado, relembravam como havia sido a geração passada, e de que forma poderosa ela se mantinha viva nas atuais.

A sedução que o encanto de momentos passados exercia sobre todos não era rompida pelas banalidades que salpicavam as conversas. Nenhum “Alguém quer mais batatas?” iria desviar o curso dos pensamentos. Vivia um sonho. Trêmulos vincos risonhos. Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida? Sonhar ouvindo: “sua maneira de inclinar a cabeça é exatamente a do seu pai, do qual nem pode se lembrar”. De repente, chegou a outra conclusão.

Não fazia o menor sentido revelar esses pensamentos. Cada um a seu tempo, iria alcançar conclusões semelhantes. Até para os netos barulhentos a verdade iria se revelar na forma que a compreensão deles alcançasse, no mo­mento certo. Para ele ficariam para sempre os sonhos, que iriam lhe permitir banhar-se no mesmo rio tantas vezes quantas teria vontade. Para todos só havia a mensa­gem de certo modo redundante.

“Espero que lembrem este almoço e os demais que passaremos juntos.” Olhou para a esposa, que caminharia a seu lado até a exaustão. Não precisaria confidenciar-lhe nada. Tantos anos juntos, tornavam desnecessárias as palavras. Abraçaram-se silenciosamente e enquanto para os demais aquilo era apenas um beijo, verteram secre­tamente um rio de lágrimas.

*Alexandru Solomon, empresário e escritor



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