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Histórias de pescaria, verdades de pescador

Histórias de pescaria, verdades de pescador

24/10/2022 Antônio Marcos Ferreira

A pescaria é uma das atividades que mais me proporcionam alegria e prazer.

E a nossa turma, a Turma Expeixeal, criada em 1999, já viveu momentos inesquecíveis, seja na pesca propriamente dita, nos diversos rios, ou nas cantorias que muitas vezes embalaram as noites das pescarias.

E as histórias são frequentes. Em 2010 fui com um amigo, Wellington Novais, a uma pescaria na represa de Três Marias, a convite de outro pescador e amigo, o Edil Ferreira, morador na cidade, pescador e também amante das pedaladas. 

No primeiro dia de pesca estávamos, o Wellington e eu, pescando tucunaré no lago, enquanto o Edil, na época já com mais de setenta anos, pescava caminhando na beira do lago.

Antes de irmos para a pescaria eu havia comprado uma carretilha nova, e a sua estréia estava ocorrendo ali.

Com o sol muito quente, nossa primeira providência foi passar protetor solar para evitar queimaduras, uma atitude comum entre pescadores. Só que o creme usado não foi devidamente secado da mão, o que é um grave erro.

Assim, na segunda vez que fiz o lançamento, que era para lançar apenas a linha e a isca artificial, a vara e a carretilha foram lançadas junto e afundaram totalmente no lago.

Desapontado, comentei com o Wellington:

- Puxa, cara, comprei a carretilha na semana passada e ainda nem tinha usado. Perdi na primeira pescaria!

- Perdeu nada! Vamos chamar o Edil e ele vai buscar pra você.

- Que é isso? Nessa fundura toda, como é que ele vai fazer?

- Você vai ver.

O Edil estava na beira, a uns cem metros do nosso barco.

Chegamos mais perto e o Wellington lhe disse:

- Edil, o Tonho perdeu a vara e a carretilha ali mais no meio do lago. Será que você consegue buscar?

O Edil, com a tranquilidade de quem conhece o assunto e que já fizera aquela operação outras vezes, entrou no nosso barco, colocou os dois pés-de-Pato e perguntou:

- Onde foi que a vara caiu?

Nós então, tentando recordar o local exato da queda da vara, dissemos:

- Foi ali, apontando para o local onde imaginávamos que a vara havia caido.

O Edil sentou-se na beirada do barco e caiu de costas na água, como se estivesse fazendo a coisa mais natural do mundo.

Demorou um tempo que, para nós que não sabíamos fazer aquilo, era muito grande, ainda mais pensando na idade daquele mergulhador.

Retornando à superfície, o Edil foi logo dizendo:

- Acho que não foi aqui que a vara caiu. Prestem atenção e vejam se definem melhor o local.

Nós dois nos entreolhamos.

- Pode ser. Acho que a gente estava mais pra cima mesmo. O vento é que trouxe o barco para este ponto. Levamos o barco para o ponto onde achávamos que era o correto.

- Tenta aqui, Edil.

- Tem certeza? Olá, hein?

- Certeza absoluta eu não tenho, ponderou Wellington. Mas acho que foi aqui mesmo.

Edil, bem tranquilo, novamente mergulhou de costas e nós ficamos ali torcendo, mas sem muita convicção de que a minha vara e carretilha seriam recuperadas.

Já pensava no prejuízo.  O tempo passando e a gente cada vez mais preocupados. A demora foi maior do que da primeira vez.

Quando a nossa preocupação já estava se transformando em medo, vimos aquele senhor, de mais de setenta anos, emergir ao lado do barco.

E para nossa alegria, surpresa e admiração, ele não subira só. Na mão direita ele segurava, orgulhoso, a minha vara com a carretilha.

- Caramba, não é que o cara conseguiu?

- Você teve muita sorte! Aqui tem como uma parede inclinada, um pequeno platô bem abaixo e nova parede inclinada até o chão. A vara caiu e ficou naquele platô.

- Mas dessa vez você demorou mais, disse!

- Foi só prá fazer um pequeno suspense. Dar mais sensação! 

Realmente, muito mais do que o suspense, ficamos felizes e admirados da capacidade do Edil.

Depois ele nos contou que na sua juventude fazia muito a pescaria de mergulho, onde os peixes eram capturados com arpão. Daí o seu fôlego impressionante, que foi preservado.

E nossa admiração também! Voltamos à pescaria, desta vez depois de secar bastante as mãos. Para não dar mais sopa para o azar!

* Antônio Marcos Ferreira

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