Meus retalhos
Meus retalhos
Nesta semana vivi uma situação que certamente é vivida com frequência nas casas de pessoas que, como eu, já contam sete décadas perambulando por este mundão, tão diferente daquele da época em que aqui desembarquei.
A tarefa para a qual me preparei, foi arrumar e dar uma limpeza na sala reservada para instrumentos musicais, equipamentos de som, fitas cassetes, LP's, CD's, DVD's e revistas de músicas, que ainda mantenho no apartamento.
Fico imaginando esta limpeza sendo feita há vinte anos, quando foi montada a sala. A sensação de satisfação e alegria por poder usufruir dessas possibilidades, tecnologias de ponta e que nos permitiam desfrutar de uma das minhas paixões: a música!
Embora praticada sempre de forma amadora, a música foi um elemento essencial nos meus relacionamentos com os amigos.
Através dela pude registrar as minhas vivências nos diversos ambientes onde participava, desde o grupo de jovens da Paróquia de São Francisco, no Carlos Prates, na turma de Engenharia Elétrica da Federal de 1977, nas turmas das pescarias e outros ambientes que frequento.
E todo o aprendizado musical, as referências, os repertórios eram oriundos daqueles materiais, alguns deles aos poucos transformados em sucatas. Cada LP que via não era apenas uma coleção de músicas.
Estavam guardados ali sentimentos tantos, histórias tantas e paixões diversas. Não há mais ali os equipamentos que os reproduzam.
Mas as emoções vividas continuam presentes, os amigos com os quais ouvimos são presenças vivas em nossas lembranças. E até os primeiros amores retornam como memórias vivas a enriquecer nossa vida.
Abro uma gaveta e vejo um livro de poemas do Vinicius de Moraes. Na primeira página a dedicatória: " Ao nosso grande amigo Antônio Marcos, verdadeiro presente que Deus colocou em nosso caminho".
Tanta generosidade só poderia vir de alguém com um coração como da Edna, uma artista super talentosa com a pintura e amiga dos tempos da Cemig. Noutra gaveta, um livro "BEMGE em Serenata".
Na dedicatória, uma mensagem da Dona Sofia, uma amiga querida, esposa do Sr. Nivaldo Maciel, cantor e grande seresteiro do Grupo de Serestas de Montes Claros, ambos falecidos.
Eram pais de um grande amigo, o Murilo Marciel, com o qual mantenho contatos e grande amizade até hoje. Ao lado, uma folha com uma partitura já bem gasta pelo tempo.
Era uma música que compus em homenagem a São Francisco de Assis. A partitura foi feita por uma amiga do grupo de jovens Movimento Jovem do Carlos Prates (MJCP), Marilurdes, que era professora de música.
Embora tocasse violão, eu não sabia fazer partitura, que ela gentilmente fez para mim. Mais tarde, por uma boa conspiração do destino, ela casou-se com José Ricardo, que fôra meu colega por cinco anos no Colégio Estadual da Serra e Central de 1967 a 1971 e é meu amigo até hoje.
Puxo outra gaveta e nas minhas mãos está um CD do Marku Ribas, cantor, compositor e multi-instrumentista nascido em Pirapora. Nossa amizade se deu por conta dos pais da sua esposa, a Fatão, e dos meus pais, que eram seus vizinhos.
Nós na rua Magnólia e eles na rua Hervália, e os quintais das casas se encontravam pelos fundos. Por ele, dona Ana (minha mãe) e dona Guidinha (mãe dela) se comunicavam e por muitas vezes trocavam produtos que sobravam numa e faltavam na outra casa.
Temos ótimas lembranças da convivência amiga entre as duas famílias. Amizades à moda antiga! Marku compôs, também em homenagem a São Francisco, uma linda canção e me pediu para colocar letra, o que fiz com muita alegria e me deixou muito honrado.
Sua morte precoce foi muito sentida pelos amigos e fãs. Quando, enfim, estava terminada a limpeza, uma folha avulsa caiu de uma prateleira.
Era um texto da incrível Cora Coralina intitulado " Sou feita de retalhos", um texto maravilhoso do qual reproduzo um pequeno trecho:
"E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados... Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma. Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim".
Sorri em silêncio, feliz! Assim eu também diria...
* Antônio Marcos Ferreira é engenheiro eletricista, aposentado da Cemig e vice-presidente da Fundação Sara.
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