Grupo WhatsApp

Moeda é Poder

Moeda é Poder

12/04/2022 Igor Macedo de Lucena

As sanções econômicas aplicadas por parte das nações ocidentais contra a Rússia como meio de retaliação após o início desta guerra, ainda sem data para seu final, se mostraram efetivas e muito rápidas.

Contudo uma específica foi a mais forte de todas: a sanção financeira atrelada às moedas que são internacionalmente aceitas como reserva de valor e meio de trocas a nível mundial.

Neste contexto, a proibição de parte das empresas e do governo russo de transacionar com o dólar norte-americano, a libra esterlina, o euro, o iene japonês e o franco suíço, além do congelamento de ativos financeiros vinculados a essas moedas, colocou a Rússia na pior das situações entre as nações em desenvolvimento.

As citadas moedas são poderosas, pois representam a confiança internacional de seus países emissores e conjuntamente representam aproximadamente 92% de todas as reservas internacionais do planeta; elas são usadas em aproximadamente 80% de todas as transações comerciais internacionais.

Após essas informações, chegou-se à conclusão de que quem controla a emissão e a circulação dessas moedas controla também, indiretamente, o fluxo de recursos e autoriza que terceiros possam manter essas moedas como uma reserva de valor além de suas fronteiras, por isso a moeda é hoje considerada um instrumento de poder geoeconômico.

Essa característica referente às principais moedas mundiais já era algo estudado na academia e no ambiente das relações internacionais, principalmente durante as crises econômicas, em que essas nações se mostram com uma maior capacidade de executar uma política monetária expansionista, tendo em vista sua conversibilidade em praticamente quase todas as moedas estrangeiras e sua elasticidade em relação a preços.

Entretanto, esta é a primeira vez que, conjuntamente, essas moedas são efetivamente usadas como um instrumento de “combate” , digamos, dentro de uma guerra, mostrando na prática, e com vigor, sua capacidade destrutiva quando se torna necessário seu uso dentro da ótica do poder geoeconômico financeiro.

Estamos assistindo à história sendo escrita. Mais que isso, conseguimos compreender o poder que a moeda possui de destruir uma economia. Não há neste texto qualquer interesse de expor crítica pelas sanções.

Muito pelo contrário, acredito que elas são verdadeiramente as melhores e mais eficazes “armas” a serem utilizadas para enfrentar a Rússia sem que se dê início a um conflito em escala mundial. 

Prevendo o mundo pós-guerra na Ucrânia, segue-se uma explicação prática do que já havia sido afirmado em artigos anteriores, o fato de que o Estado, ao deter o controle exclusivo da emissão de moeda e seu poder perante os agentes que a usam, apresenta uma capacidade de exercer seu poder a nível internacional; portanto, nunca os Estados deverão abrir mão de tal importante poder voluntariamente.

Por tal motivo, enalteço a crítica às criptomoedas como possíveis sucessoras das moedas nacionais. Ora, a existência de moedas como Bitcoin, Ethereum, Cardano e outras são de fato ameaças existenciais ao poder do Estado no âmbito financeiro, pois se hipoteticamente se tornassem os principais meios transacionais e de reserva de valor de Estados nacionais, o poder geoeconômico das moedas, como conhecemos tradicionalmente, seria extinto.

Nesse contexto, acredito que a regulação dos ativos e a sua adoção pelos Estados devem se tornar uma tendência, devidamente alocada dentro da margem do sistema financeiro, algo focado em nichos de investimento e não necessariamente dentro da economia real de trocas de bens e serviços.

Existem diversas críticas aos criptoativos, seja por fraudes, pela instabilidade ou mesmo pelo uso no submundo da economia, e esses são elementos que contribuem para a manutenção do poder dos Estados sobre as moedas em escala global.

O que outrora fora uma desconfiança pelo uso em guerras desse poder por parte das nações mais industrializadas do mundo, hoje já é uma realidade contra a Rússia e despertou o olhar antes cético de nações do mundo árabe, como ocorre na Arábia Saudita, que passa seriamente a discutir a venda de petróleo em Yuan, moeda corrente da China, temendo que suas reservas internacionais em Dólares e Euros possam um dia ser usadas contra eles mesmos em conflitos internacionais, tais como está ocorrendo na Rússia.

Se por um lado essas nações têm um extraordinário poder financeiro ao exercer o controle das principais moedas de transação e reserva de valor do planeta, por outro o uso delas em um conflito internacional também pressupõe questionamentos sobre sua adoção internacional, como um possível “Cavalo de Troia” para nações não liberais e para aquelas em que o seu alinhamento não é total e irrestrito em conflitos internacionais.

A manutenção do poder dessas moedas e sua composição a nível internacional certamente serão um importante campo de estudo para a academia no campo da economia e das relações internacionais, bem como um tema a ser debatido, no âmbito da estratégia internacional das nações, em um mundo no qual a Realpolitk volta a se impor com centralidade internacional.

* Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, Doutor em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa.

Para mais informações sobre sanções econômicas clique aqui…

Publique seu texto em nosso site que o Google vai te achar!

Fonte: Comunica PR



Para onde caminha a humanidade?

O pragmatismo está ampliando a confrontação econômica. Novas formas de produzir e comercializar vão surgindo com mais rigidez e agilidade.

Autor: Benedicto Ismael Camargo Dutra


Reforma Tributária: mudança histórica ou novo capítulo do caos fiscal

A Reforma Tributária entra na fase prática em 2026 com a criação do IBS e da CBS, que passam a incidir com alíquotas reduzidas.

Autor: Eduardo Berbigier


Austeridade fiscal, caminho obrigatório para ordem e progresso

Quando se aproximam as eleições, o brasileiro se pergunta se é possível ter um país melhor em condições de vida para todos os cidadãos. É o que se deseja.

Autor: Samuel Hanan


Impeachment não é monopólio

A decisão de Gilmar Mendes e o estrangulamento institucional.

Autor: Marcelo Aith


Nova lei da prisão preventiva: entre a eficiência processual e a garantia individual

A sanção da Lei 15.272, em 26 de novembro de 2025, representa um marco na evolução do processo penal brasileiro e inaugura uma fase de pragmatismo legislativo na gestão da segregação cautelar.

Autor: Eduardo Maurício


COP 30… Enquanto isso, nas ruas do mundo…

Enquanto chefes de Estado, autoridades, cientistas, organismos multilaterais e ambientalistas globais reuniam-se em Belém do Pará na COP 30, discutindo metas e compromissos climáticos, uma atividade árdua, silenciosa e invisível para muitos seguia seu curso nas ruas, becos e avenidas do Brasil e do mundo.

Autor: Paula Vasone


Reforma administrativa e os impactos na vida do servidor público

A Proposta de Emenda à Constituição da reforma administrativa, elaborada por um grupo de trabalho da Câmara dos Deputados (PEC 38/25) além de ampla, é bastante complexa.

Autor: Daniella Salomão


A língua não pode ser barreira de comunicação entre o Estado e os cidadãos

Rui Barbosa era conhecido pelo uso erudito da língua culta, no falar e no escrever (certamente, um dos maiores conhecedores da língua portuguesa no Brasil).

Autor: Leonardo Campos de Melo


Você tem um Chip?

Durante muito tempo frequentei o PIC da Pampulha, clube muito bom e onde tinha uma ótima turma de colegas, jogadores de tênis, normalmente praticado aos sábados e domingos, mas também em dois dias da semana.

Autor: Antônio Marcos Ferreira


Dia da Advocacia Criminal: defesa, coragem e ética

Dia 2 de dezembro é celebrado o Dia da Advocacia Criminal, uma data emblemática que, graças à união e à força da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), integra o calendário oficial das unidades federativas do país.

Autor: Sheyner Yàsbeck Asfóra


STF não tem interesse – nem legitimidade – em descriminalizar aborto

A temática relativa ao aborto e as possibilidades de ampliação do lapso temporal para a aplicação da exclusão de ilicitude da prática efervesceram o cenário político brasileiro no último mês.

Autor: Lia Noleto de Queiroz


O imposto do crime: reflexões liberais sobre a tributação paralela nas favelas brasileiras

Em muitas comunidades brasileiras, especialmente nas grandes cidades, traficantes e milicianos impõem o que chamam de “impostos” – cobranças sobre comerciantes, moradores e até serviços públicos, como transporte alternativo e distribuição de gás.

Autor: Isaías Fonseca