Grupo WhatsApp

O caminho de 25 anos entre Mercosul e União Europeia

O caminho de 25 anos entre Mercosul e União Europeia

24/12/2024 João Alfredo Lopes Nyegray

Após mais de duas décadas em processo de negociação, finalmente foi firmado o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE).

Trata-se de um pacto comercial abrangente, que visa à redução ou eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias entre os dois blocos, criando um dos maiores mercados integrados do mundo.

O acordo se configura como um marco geopolítico e econômico, com potencial para incrementar fluxos comerciais, atrair investimentos, harmonizar padrões regulatórios e fortalecer as cadeias produtivas ao longo do Atlântico.

As negociações formais tiveram início em 1999 e se estenderam até o anúncio de um acordo político em 2019, resultando em um lapso temporal superior a vinte anos. Vários fatores explicam essa longa duração das deliberações.

O primeiro deles é que a União Europeia historicamente mantém políticas agrícolas fortemente protegidas pela Política Agrícola Comum (PAC).

Países-membros com setores rurais sensíveis, como França, Irlanda e Áustria, resistiram à abertura de seus mercados a produtos agrícolas do Mercosul, especialmente carne bovina, açúcar e etanol.

Esses entraves resultaram em inúmeras rodadas de negociação, busca por cotas e garantias de proteção tarifária, além da exigência de padrões sanitários mais rigorosos.

O segundo fator que explica a demora nas negociações é que tanto o Mercosul quanto a UE são blocos formados por diversos países com interesses econômicos e políticos heterogêneos.

No Mercosul, há disparidades econômico-estruturais entre o Brasil, a economia mais robusta, e países menores.

Na UE, o consenso entre 27 Estados-membros, com políticas comerciais e industriais distintas, complicou a definição de posições comuns e atrasou os acordos.

Por fim, nas fases finais das negociações, aspectos socioambientais ganharam destaque. Preocupações com o desmatamento na Amazônia, a necessidade de conformidade com o Acordo de Paris sobre o clima e pressões da opinião pública europeia por padrões ambientais mais elevados dificultaram a conclusão.

A UE exigiu compromissos ambientais mais rigorosos, enquanto países do Mercosul, notadamente o Brasil, relutaram diante do que consideravam condicionantes excessivas.

O acordo estabelece reduções tarifárias para produtos industrializados e agrícolas. Do lado europeu, haverá uma abertura substancial do mercado para bens manufaturados do bloco, como máquinas, equipamentos, produtos químicos e farmacêuticos.

Em contrapartida, o Mercosul terá melhores condições de acesso para seus produtos agrícolas, como carnes, grãos e frutas.

Além disso, o acordo prevê questões sobre serviços, propriedade intelectual, regras de origem, facilitação de comércio, compras governamentais e compromissos relativos a normas ambientais e trabalhistas.

Destaca-se também o estabelecimento de cotas tarifárias para produtos sensíveis, evitando a liberalização irrestrita de setores delicados.

O Mercosul e a UE, juntos, abrangem cerca de 780 milhões de consumidores — a UE com aproximadamente 450 milhões e o Mercosul com cerca de 270 milhões.

O Produto Interno Bruto (PIB) combinado é expressivo, somando-se o PIB da UE (mais de 15 trilhões de euros) ao do Mercosul (mais de 2,5 trilhões de euros), representando uma parcela robusta do PIB global.

A União Europeia estima que suas exportações para o Mercosul poderão crescer substancialmente. Segundo projeções da Comissão Europeia, o acordo pode gerar uma economia de até 4 bilhões de euros em tarifas para exportadores europeus.

Para o Mercosul, a redução de barreiras no mercado da UE permitirá maior competitividade em setores-chave do agronegócio, aumentando receitas de exportação e estimulando investimentos na melhoria da produtividade.

Embora seja difícil quantificar precisamente os efeitos de longo prazo, estudos econométricos e simulações indicam potenciais incrementos no PIB e na geração de empregos em ambos os blocos, desde que as reformas e ajustes necessários sejam implementados.

Uma maior integração tende a dinamizar as cadeias produtivas, promovendo uma especialização produtiva mais eficiente, a incorporação de novas tecnologias e o aumento da competitividade empresarial.

No entanto, o acordo não entrará em vigor imediatamente, pois precisa ser aprovado pelos parlamentos dos países-membros dos blocos.

A questão que se coloca, frente a esse novo cenário que se seguirá é: como o Brasil, que vem perdendo competitividade e que vem se desindustrializando ao longo das últimas décadas, se preparará para essa nova fase de concorrência?

* João Alfredo Lopes Nyegray é doutor e mestre em Internacionalização e Estratégia.

Para mais informações sobre Mercosul clique aqui…

Publique seu texto em nosso site que o Google vai te achar!

Entre para o nosso grupo de notícias no WhatsApp

Todos os nossos textos são publicados também no Facebook e no X (antigo Twitter)

Quem somos

Fonte: Central Press



Para onde caminha a humanidade?

O pragmatismo está ampliando a confrontação econômica. Novas formas de produzir e comercializar vão surgindo com mais rigidez e agilidade.

Autor: Benedicto Ismael Camargo Dutra


Reforma Tributária: mudança histórica ou novo capítulo do caos fiscal

A Reforma Tributária entra na fase prática em 2026 com a criação do IBS e da CBS, que passam a incidir com alíquotas reduzidas.

Autor: Eduardo Berbigier


Austeridade fiscal, caminho obrigatório para ordem e progresso

Quando se aproximam as eleições, o brasileiro se pergunta se é possível ter um país melhor em condições de vida para todos os cidadãos. É o que se deseja.

Autor: Samuel Hanan


Impeachment não é monopólio

A decisão de Gilmar Mendes e o estrangulamento institucional.

Autor: Marcelo Aith


Nova lei da prisão preventiva: entre a eficiência processual e a garantia individual

A sanção da Lei 15.272, em 26 de novembro de 2025, representa um marco na evolução do processo penal brasileiro e inaugura uma fase de pragmatismo legislativo na gestão da segregação cautelar.

Autor: Eduardo Maurício


COP 30… Enquanto isso, nas ruas do mundo…

Enquanto chefes de Estado, autoridades, cientistas, organismos multilaterais e ambientalistas globais reuniam-se em Belém do Pará na COP 30, discutindo metas e compromissos climáticos, uma atividade árdua, silenciosa e invisível para muitos seguia seu curso nas ruas, becos e avenidas do Brasil e do mundo.

Autor: Paula Vasone


Reforma administrativa e os impactos na vida do servidor público

A Proposta de Emenda à Constituição da reforma administrativa, elaborada por um grupo de trabalho da Câmara dos Deputados (PEC 38/25) além de ampla, é bastante complexa.

Autor: Daniella Salomão


A língua não pode ser barreira de comunicação entre o Estado e os cidadãos

Rui Barbosa era conhecido pelo uso erudito da língua culta, no falar e no escrever (certamente, um dos maiores conhecedores da língua portuguesa no Brasil).

Autor: Leonardo Campos de Melo


Você tem um Chip?

Durante muito tempo frequentei o PIC da Pampulha, clube muito bom e onde tinha uma ótima turma de colegas, jogadores de tênis, normalmente praticado aos sábados e domingos, mas também em dois dias da semana.

Autor: Antônio Marcos Ferreira


Dia da Advocacia Criminal: defesa, coragem e ética

Dia 2 de dezembro é celebrado o Dia da Advocacia Criminal, uma data emblemática que, graças à união e à força da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), integra o calendário oficial das unidades federativas do país.

Autor: Sheyner Yàsbeck Asfóra


STF não tem interesse – nem legitimidade – em descriminalizar aborto

A temática relativa ao aborto e as possibilidades de ampliação do lapso temporal para a aplicação da exclusão de ilicitude da prática efervesceram o cenário político brasileiro no último mês.

Autor: Lia Noleto de Queiroz


O imposto do crime: reflexões liberais sobre a tributação paralela nas favelas brasileiras

Em muitas comunidades brasileiras, especialmente nas grandes cidades, traficantes e milicianos impõem o que chamam de “impostos” – cobranças sobre comerciantes, moradores e até serviços públicos, como transporte alternativo e distribuição de gás.

Autor: Isaías Fonseca