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Quando a carabina e a parteira fizeram uma parceria

Quando a carabina e a parteira fizeram uma parceria

28/11/2022 Antônio Marcos Ferreira

Na nossa infância, passada na cidade de Manga, uma coisa que nos deixava muito felizes era passear nas fazendas dos parentes, tanto por parte do meu pai quanto da minha mãe.

Entre elas, uma das que mais gostávamos de ir era a Fazenda Japoré, de propriedade do irmão mais velho da minha mãe, Tio Bonifácio.

Era bem mais velho que minha mãe, caçula entre os seis irmãos. A fazenda tinha vários aspectos que causavam muito interesse na meninada.

Havia os cavalos, que utilizávamos para passeios e para tocar o gado. O leite, tirado manualmente, servia para fazer queijo e requeijão, processo manual mas que também nos causava admiração. A fabricação de farinha e de rapadura também nos encantava. 

O rio Japoré, muito limpo e corrente, outra fonte de alegria e divertimento. Antes do almoço, o banho de rio era sagrado e mesmo para quem não sabia nadar era possível desfrutar daquela brincadeira.

O Tio Bonifácio era também uma figura bastante admirada pelos garotos da nossa idade. Além da personalidade forte, muito trabalhador, tinha uma característica que nos impressionava muito, pois tinha uma perna amputada bem acima do joelho, motivada por um acidente no curral.

Em certa ocasião ele tinha cortado alguns pequenos arbustos com a foice. Era comum fazer dois cortes, de forma que a parte do tronco que ficava no chão tinha a ponta em forma de "v".

Certo dia ele se acidentou com a perna esquerda numa dessas pontas, causando uma grande ferida. Tratada com remédios caseiros, a ferida nunca cicatrizava.

Depois de algum tempo seu filho mais velho então levou-o até a capital, onde foi verificada a necessidade de amputação.

Mesmo com essa deficiência, ele trabalhava, montava a cavalo, capinava e tinha uma vida muito próxima da normalidade.

Uma coisa da qual me lembro bem era que ele dizia que sentia cócegas no joelho da perna que fôra amputada. Ou seja, o joelho já não existia mais, mas a sensação de cócega permanecia, como se ali estivesse ainda. 

Muitos anos depois, Chico Buarque confirmou isso numa bela canção "Pedaço de mim", na qual ele diz: "Ó pedaço de mim. Ó metade amputada de mim. Leva o que há de ti, que a saudade dói, latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi." Quando ouvi pela primeira vez esta música me lembrei do meu tio. 

Tia Leonidia, sua esposa, era uma senhora bem miúda, que sempre viveu para os trabalhos domésticos e a criação dos seis filhos.

Há um fato bem engraçado ocorrido com o Tio Bonifácio, que mostra bem a sua característica. Quando se casaram, a Tia Leonidia era apenas uma menina, na faixa de treze anos, o que, mesmo na roça, era um fato inusitado, já que um casamento numa idade tão precoce era algo que não se via.

Mas viveram algum tempo até aquela menina engravidar. Viviam na fazenda, na época um lugar bastante ermo. Acesso difícil, isolado de tudo.

Além da sua casa, na vizinhança havia apenas mais uma casa distante cerca de cento e poucos metros, onde morava o Alírio, que trabalhava há bastante tempo na fazenda.

Finalmente, depois de um bom tempo, a Tia Leonídia ficou grávida. Gravidez normal, vivida na roça e sem qualquer acompanhamento médico, o que era comum naquela região.

Viviam sozinhos na casa, e, decorrido o tempo normal, começaram os sintomas e as dores, anunciando a hora do parto. Ele ficou numa sinuca: não podia deixá-la sozinha, mas precisava sair para buscar a parteira.

Começou então a gritar pelo Alírio e ele nada de responder. Como ele não podia sair e deixar a mulher só, não teve outra alternativa: pegou a carabina, apontou para a casa do Alírio e sapecou um tiro.

Nesse momento, o Alírio saiu desesperado!

- Cê tá doido, Seu Bonifácio! Tá querendo me matar?

- Vem cá, desgraçado! Da hora que eu tô te gritando e cê num aparece! Rita tá aqui com "dor de menino"! (Rita era como a Tia Leonídia era chamada por ele) 

- Corre e vai buscar a parteira!

Alírio montou seu cavalo e saiu em disparada pra cumprir a ordem e buscar a parteira. Aquela foi a comunicação mais rápida que se viu naquele sertão, no norte de Minas.

* Antônio Marcos Ferreira

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