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Setembro Amarelo: a diferença entre ouvir e escutar

Setembro Amarelo: a diferença entre ouvir e escutar

20/09/2021 Alexandrina Meleiro

Acender um alerta na sociedade para salvar vidas quando se fala em prevenção ao suicídio é tão complexo quanto o comportamento de uma pessoa com a intenção de tirar a própria vida.

Ainda que nem todas as mortes possam ser evitadas, as estatísticas seriam menores com uma intervenção precoce. Mas, normalmente, só há proatividade quando a doença mental já está bem avançada e evidente.

O Setembro Amarelo é um convite para a reflexão sobre a importância de fazer parte de uma rede de apoio que possa ajudar quem precisa e incentivar a busca por auxílio aos mais de 18,5 milhões de brasileiros que convivem com os transtornos de ansiedade e os 11,5 milhões que tentam lidar com diferentes graus de depressão.

Devemos entender por rede de apoio não só familiares e amigos, mas também chefes e colegas de trabalho, escola e faculdade, vizinhos, membros de comunidades religiosas e, até mesmo, o médico de confiança.

Ou seja, todos aqueles que fazem parte do círculo social mais próximo do paciente e que estejam dispostos a ajudá-lo.

Os temas depressão, suicídio e ansiedade são sensíveis no Brasil e, com a pandemia de Covid-19, houve um aumento significativo do número de casos.

Os motivos vão desde o medo de contágio até o sentimento de perda e luto, fora o estresse causado pelos efeitos do confinamento.

Para mostrar a importância de acolher e ser acolhido, a ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) apoia a campanha “Bem Me Quer, Bem Me Quero”, tendo o girassol como o símbolo da vida, que, assim como os seres humanos, precisa do apoio de todo o ecossistema para se manter firme e lindo, mesmo em dias nublados.

Todos os anos são registrados cerca de 12 mil suicídios somente no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Quase a totalidade (97%) dos casos de suicídio estava relacionada a transtornos mentais como a depressão, em primeiro lugar, seguida do transtorno bipolar, abuso de álcool e drogas ilícitas.

Os comportamentos e as emoções de quem pensa em cometer suicídio são vários e não surgem de uma hora para outra. As pessoas dão sinais.

O afastamento dos amigos e familiares, o abandono de atividades até então importantes, a mudança drástica de humor, a baixa autoestima, os períodos de tristeza.

Há ainda sentimentos de raiva, falta de perspectiva, discurso negativo e vago, aumento no consumo de bebida alcoólica, uso de drogas, padrão de sono anormal e comportamento imprudente não usual.

Além da automutilação, praticada por cerca de 10% dos jovens com 14 a 20 anos de idade que podem vir a tirar a própria vida, há quem escreva uma carta de despedida, doe seus bens ou deixe instruções.

São raras as situações onde esses problemas ficam ocultos ao longo do tempo. É importante deixar claro que cometer suicídio não tem a ver com egoísmo, covardia, falta de amor à vida ou fuga dos problemas.

Na maioria dos casos, a pessoa busca pôr fim a um sofrimento e aliviar uma dor com os quais não consegue lidar.

Com o mundo virtual, os sintomas tendem a se exacerbar. Uma pessoa com depressão vê nas redes sociais o oposto da realidade que ela vive hoje: as fotos de jantares bonitos, um #TBT das viagens dos sonhos, relacionamentos descritos como uma história de amor sem fim, pessoas que parecem felizes o tempo todo. Esse contraste acarreta uma frustração e também afeta a vontade de viver do deprimido.

É preciso se conscientizar, despir-se do preconceito e do conceito de que a depressão é frescura, preguiça e falta de trabalho.

E praticar a empatia, tentar entender a visão do mundo da outra pessoa, como ela o enxerga. Não desafiar quem diz sentir vontade de morrer, mas ouvir sem julgamentos para buscar uma forma de ajudar.

O suicídio costuma ser o desfecho de uma saúde mental já muito debilitada e da falta de perspectivas - de acordo com o olhar desse paciente - de acabar com a dor pela qual está passando. Nada tem a ver com covardia. E quem estava perto não percebeu ou, se percebeu, duvidou.

Para quem está à volta do paciente, a escuta ativa ajuda na construção de uma rede de apoio eficaz, que será importante na aceitação de um acompanhamento psiquiátrico e psicológico, contribuindo para a adesão ao tratamento e, consequentemente, a recuperação do paciente.

Escutar é muito mais do que ouvir. Escutar requer dar atenção, interpretar sinais e, principalmente, oferecer apoio. É o que todos nós precisamos para nos levantar.

* Alexandrina Meleiro é médica psiquiatra, doutora em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, membro do Conselho Científico da ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos).

Para mais informações sobre Setembro Amarelo clique aqui…

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Fonte: Agência Fato Relevante



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